Música, educação e afins

Música é um fenômeno social, que pode nos aproximar de determinadas pessoas e nos afastar de outras. Isto porque usamos música para compartilhar sensações e emoções, para transmitir valores e ideais com os quais nos identificamos. Deste modo, nem sempre é gratuito gostar (ou não) de determinada música, estilo, ou gênero musical; nosso gosto musical por muitas vezes tem origem, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, nas relações sociais que estabelecemos (ou que os outros estabelecem conosco).

Musicalização de adultos


Já há algum tempo que decidi seguir carreira acadêmica. Há dois anos venho elaborando um projeto de pesquisa, para o mestrado, sobre Improvisação no Choro, assunto que muito me interessa. Mas havia outro tema que muito me dizia respeito (de acordo com a minha trajetória profissional) e para o qual eu ainda não havia me dado conta: a musicalização de adultos.

Imagine que o aluno tenha duas ou três vezes mais anos de vida que o professor. Pois bem. Acredito que esta situação seja tão rica de significados quanto na educação musical infantil. É lógico que a bagagem que o aluno adulto trás é muito maior e mais bagunçada que a de um jovem. Para um "virginiano", que adora organizar bagunças, isto é um banquete! É como se aventurar num sótão ou antiquário: um lugar cheio de história para contar e muitas vezes cheio de tesouros escondidos. E encontrar, nesta bagunça "organizada" durante anos, a origem de uma dificuldade específica da aprendizagem musical é um desafio gigante, aparentemente impossível. Um trabalho para psicopedagogos da música¹, imagino eu.

A musicalização na maturidade exige habilidades diferentes da musicalização na infância, exige isca e anzol diferentes. Os jogos pedagógicos em sua maioria visam o público infantil e utilizá-los tal qual a cartilha para musicalizar um adulto, além de inadequado, às vezes pode ser até constrangedor, tanto para o professor quanto para o aluno. É necessário compreender a essência do conteúdo para desenvolver outra didática.

O adulto geralmente apela mais para a razão, para a lógica e até para a matematização dos conteúdos. Então, pela lógica, uma série de tabelas e gráficos sobre teoria musical poderiam iluminar o aprendizado deste adulto. Correto? Não, errado. Às vezes podem obscurecer mais ainda. Música é som, movimento, repetição, sensação, percepção. Isto sim ilumina o aprendizado. A melhor forma de musicalizar uma pessoa independentemente da sua idade continua sendo através do corpo, andando, batendo palmas, e lógico cantando e tocando.

Outro dia meu aluninho sexagenário fez uma grande descoberta e me disse impressionado: "quer dizer que a nota tem som?". Parece que ele passou a vida inteira sem saber que cada "bolinha" em uma partitura só é uma "nota" porque possui uma frequência definida. Isso talvez ajude a explicar porque, ao tocar sua gaita junto com uma gravação, ele reproduzia quase tudo com fidelidade: perfil rítmico, dinâmica, expressividade... menos as alturas. Até o momento ele nunca tinha associado o que ele fazia na gaita com o que eu vinha falando para ele sobre notas musicais.

Nota musical pode ser algo obscuro e misterioso até mesmo para músicos, por exemplo: percussionistas populares, batuqueiros, ritmistas, ou até mesmo músicos e cantores famosos. Muitos não têm noção do que é um Dó. E às vezes nem precisam tê-la, pois já tocam e cantam maravilhosamente bem. Eventualmente descobrem que aquilo que aquelas misteriosas "bolinhas" da partitura representam eles já fazem há muito tempo. E por isso, o momento da descoberta para estes é algo muito mais esplêndido. O aprendizado ocorre através de insights, momentos onde tudo aquilo se torna claro; justamente o "tudo aquilo" que a criança ainda não aprendeu.

¹ GAÍNZA, V. Hemsy de. Estudos de psicopedagogia musical. São Paulo: Summus, 1988.

3 comentários:

Cuervolist disse...

fiquei curioso no sentido de saber
COMO se constrói essa trama:(des)notação por um lado e,por outro,aqueles atributos que a que vc se refere.Zé!?!?

Cuervolist disse...

a idéia é COMPREENDER aquele SENTIR..> ÈZ !?!>>>

Matheus viana batista disse...

Gostei.
Concordo com a maior parte do que você escreveu. Porém ainda acredito que o caráter individual do adulto e da criança determinam a maioria dos "problemas" da educação musical. Então é necessário tempo e diálogo com esses indivíduos, sejam eles adultos ou crianças. O problema é que o nosso modelo de educação capitalista quer industrializar tudo, se é que você me entende...
Agora, como está no seu blog, a prática ainda é o melhor diálogo musical pra termos com nossos alunos.

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