Música, educação e afins

Música é um fenômeno social, que pode nos aproximar de determinadas pessoas e nos afastar de outras. Isto porque usamos música para compartilhar sensações e emoções, para transmitir valores e ideais com os quais nos identificamos. Deste modo, nem sempre é gratuito gostar (ou não) de determinada música, estilo, ou gênero musical; nosso gosto musical por muitas vezes tem origem, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, nas relações sociais que estabelecemos (ou que os outros estabelecem conosco).

Carta aberta aos alunos e professores da Escola de Música da UFMG


Gostaria de expor aqui algumas questões que, se não são ainda, deveriam ser de interesse desta Instituição e de seus membros. Pois, no dia 17 de fevereiro do ano corrente abriu-se o edital nº 126 de 16 de fevereiro de 2012 para, conforme publicado no próprio site da Escola de Música, o “provimento de 01 (uma) vaga de Professor substituto na Escola de Música da UFMG. Área de conhecimento: Violão / Música Popular. No edital em questão exigia-se do candidato, além da Graduação em música, comprovação de sua experiência como violonista nas áreas de música popular e música erudita.

Toco violão desde 1997, entrei para o Conservatório de Música de Niterói no ano de 2000 e, em 2003, no auge e início do fim da minha atuação como violonista erudito, realizei um concerto inteiramente solo, no Salão Nobre do Teatro Municipal de Niterói, com peças de compositores como Leo Brouwer e Villa-Lobos. Em 2005, fui aprovado nos vestibulares da UFMG e UNIRIO para o curso de Licenciatura em Música e na UFRJ para o curso de Bacharelado em violão. Como desde cedo meu objetivo era a docência, eu preferi cursar Licenciatura e assim vim parar em Belo Horizonte, onde me formei em 2009.

Em agosto deste ano, se tudo correr bem, termino meu mestrado em Música e Cultura, cujo tema é a Improvisação no Choro, gênero com o qual venho trabalhando profissionalmente e me especializando desde 2006. Há bastante tempo, então, percebo-me como um músico essencialmente popular [apesar da referida formação erudita] e venho me interessando cada vez mais pelo estudo das linguagens musicais que pelo estudo do violão. E foi por isso, inclusive, que desde 2006 também eu decidi me aventurar no estudo de outros instrumentos, o que sem dúvida alguma vem me proporcionando um conhecimento sobre as linguagens do samba e do choro que, de outra maneira, eu não o teria.

Assim, estudando cada vez menos meu instrumento principal, minhas esperanças de compor o quadro de professores desta ou de qualquer outra escola de nível superior reduziram-se aos departamentos de teoria musical. A abertura do já referido edital foi pra mim, então, como uma injeção de ânimo dado o quadro político em que nos encontramos, se não me engano, desde o início do ano passado, com os cortes no orçamento público que reduziram desde a realização de concursos à nomeação de professores para as universidades.

Inicialmente não me senti muito apto à participar desta seleção, haja vista que não tenho um repertório muito extenso de violão solo instrumental, como é de praxe. Mas, analisando a situação com mais critério, lembrei que sou essencialmente um músico popular, com alguma formação erudita e, acima de tudo, apaixonado por educação, além de comprovadamente apto a assumir esta vaga de professor de violão no infante curso de Música Popular desta escola, de acordo com todos os critérios de seleção expostos no edital em questão. Resolvi então que esta era hora de “parar tudo” [o que incluiu minha pesquisa de mestrado] para tentar esta vaga.

Preparei então um repertório com o melhor que eu tinha a oferecer de música popular, tentando mostrar várias vertentes de um violonista popular, como solista e, principalmente, acompanhador, haja vista que no mercado para violonistas populares sempre predominou a habilidade de acompanhar, sejam cantores ou outros instrumentistas. Mas reconheço que, no dia da seleção, minha execução instrumental não foi das melhores e prova didática péssima, pois travei de nervoso frente à primeira grande oportunidade de ser oficialmente professor de música em um curso superior. E acredito do fundo do coração que o candidato aprovado tenha merecido a vaga de acordo com os critérios do edital.

Apenas não fiquei satisfeito de constatar que, extra-oficialmente, um outro critério era que o canditato também soubesse tocar guitarra, tal como me foi perguntado se eu o sabia [afinal, se critério não fosse não haveria porque desta pergunta]. Compreendo que muito provavelmente a grande maioria dos “violonistas” aprovados no vestibular pra Música Popular são também [ou principalmente] guitarristas. Mas na minha opinião, guitarra e violão são instrumentos completamente diferentes. Caso contrário, um Yamandú Costa, um Maurício Carrílho, um João Bosco e diversos outros exímios violonistas brasileiros, não teriam nenhuma chance nesse concurso para professor de violão do curso de música popular. Ou teriam?

Talvez em determinados contextos musicais, como o do jazz, ou da pretendida a universal "música instrumental", usar guitarra ou violão seja apenas uma questão de gosto. Todavia, assim como piano e cravo, estes instrumentos exigem técnicas significativamente diferentes uma da outra [quiçá mais diferentes ainda que piano e cravo], além do que, os repertórios típicos de cada um são também bastante diferentes. Se não o fossem, não seria estranho [pra não dizer ridículo] tocar heavy metal no violão ou samba de raiz em uma guitarra com distorção. Recentemente, inclusive, vendi minha guitarra, que jazia dentro de sua bag havia anos por motivos como este e, paralelamente, por falta de demanda profissional no meu caso em particular.

O que eu realmente quero com esta carta aberta às comunidades docente e discente desta Escola de Música é que, dadas as circunstâncias aqui expostas, se questionassem a si mesmas: que tipos de músicos pretendemos formar com esta mentalidade, de que um violonista popular deve também saber tocar guitarra e vice-versa? Violonistas de samba? Acredito não. Guitarristas de Rock? Tampouco. Que eu esteja completamente enganado, mas, muito provavelmente, estaremos mais aptos a formar Violonistas/Guitarristas de "Música Instrumental [Brasileira e olhe lá]". E isso não seria uma forma de exclusão sócio-cultural, como a que até bem pouco tempo sofria [ou ainda sofre] a Música Popular dentro das Escolas de Música?

Talvez daqui a alguns anos, se não continuarmos empacados por provincianismos musicais, surja o tão esperado Bacharelado em Guitarra para de uma vez por todas tirar a prova de que este instrumento, como vários outros, merece uma atenção especial, ao invés de ser relegado aos porões dos cursos de violão.

Saudações brasileiras,
Atenciosamente
David Diel

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