Música, educação e afins

Música é um fenômeno social, que pode nos aproximar de determinadas pessoas e nos afastar de outras. Isto porque usamos música para compartilhar sensações e emoções, para transmitir valores e ideais com os quais nos identificamos. Deste modo, nem sempre é gratuito gostar (ou não) de determinada música, estilo, ou gênero musical; nosso gosto musical por muitas vezes tem origem, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, nas relações sociais que estabelecemos (ou que os outros estabelecem conosco).

A música do corpo e das coisas

Barbatuques
John Blacking (1973) definia música como “sons humanamente organizados”; Murray Schafer (1986), como “uma organização de sons [ritmo, melodia etc.] com a intenção de ser ouvida” [apreciada]. A definição de música que mais me agrada hoje une estas duas: música é uma organização humana de sons e silêncios com a intenção de ser apreciada. Isto implica que a música, em essência, depende apenas da percepção dos sujeitos, ou seja, ela mora na subjetividade e não na concretude física do som, ou dos instrumentos musicais. Afinal, como o próprio nome sugere, instrumentos são apenas instrumentos, ferramentas, meios para a criação musical.

Assim, se a prática musical não depende necessariamente da utilização de instrumentos musicais [tais como normalmente os concebemos] a educação musical também não o deveria. Decerto que, pelas cores, formatos, complexidade tecnológica [e, lógico, pelo timbre], os instrumentos musicais modernos costumam cativar a grande maioria seus estudantes. No entanto, devido à uma série de circunstâncias da atualidade (econômicas, políticas, logísticas etc.), é muito importante que os educadores saibam incentivar seus alunos a estudarem música não apenas pela possibilidade de se aprender a tocar um instrumento musical, principalmente no contexto de ensino curricular de música nas escolas.

Como praticamente não preveem gastos com recursos materiais, projetos de ensino de música voltados para o canto e a percussão corporal, por exemplo, poderiam finalmente promover a democratização do ensino de música nas escolas. Afinal, o canto e a percussão são as manifestações musicais mais primitivas; estiveram e ainda estão presentes em praticamente todas as sociedades do mundo. Não seria nenhum exagero, inclusive, afirmar que grande parte do conhecimento musical da humanidade deve sua existência à estas práticas.

Da mesma forma, não há no mundo um povo que não dance. E se “dança é música feita visível” (George Balanchine), inversamente o flamenco (Espanha), por exemplo, é uma dança feita audível; assim como o clogging (Reino Unido) e posteriormente a juba dance ou hambone (Estados Unidos), que influenciaram direta e indiretamente no desenvolvimento do sapateado moderno (CONSORTE 2012). Todas estas são manifestações cuja definição encontra-se em um limiar entre dança e música feita com o corpo (nestes casos com os pés, principalmente).
[...] Sendo seres corpóreos, atuamos com o corpo. O corpo não é instrumento para a educação, mas seu veículo primordial [...] (SANTIAGO 2008, p.54). [...] mediante a possibilidade de se expressar por meio dos corpos e da fantasia, as crianças podem dissipar as agressões e obter a autoconfiança [...] (Menuhin apud BASTIAN 2009, p.78).
Outra forma de promover uma democratização da educação musical seria trabalhar com a percussão “alternativa”, como costumo definir a junk percussion (ou, percussão com objetos inusitados, tal como colheres, baldes, panelas, vassouras, caixas de fósforos, bolas de basquete, serrotes, bicicletas, carros, tratores, emfim tudo que produza som). E engana-se quem acha que esse tipo de abordagem reduz o ensino da música aos aspectos rítmicos; muitos objetos produzem sons de alturas definida quando percutidos. Assim, o ensino de qualquer parâmetro musical depende mais da criatividade do professor que dos recursos materiais disponíveis.

Stomp

A educação musical deve ter como objetivo maior a formação de seres humanos mais conscientes de como suas experiências musicais afetam suas vidas. De um ponto de vista antropológico a música é uma atividade através da qual o ser humano percebe o mundo e se expressa sobre ele, e sobre si. O conhecimento musical é um espectro do conhecimento sobre a vida, assim como a física, a matemática, a linguística e etc. A grande diferença é que com música esse conhecimento costuma ser construído com mais prazer e alegria.
[...] Educar-se na música é crescer plenamente e com alegria. Desenvolver sem dar alegria não é suficiente. Dar alegria sem desenvolver tampouco é educar. [...] (GAINZA 1988, p.95)
Referências Bibliográficas
BASTIAN, Hans Günther. Música na Escola: a contribuição do ensino de música no aprendizado e no convívio social da criança. São Paulo : Paulinas, 2009.
BLACKING, John. How Musical is man? Seattle : University of Washington Press, 1973.
CONSORTE, Pedro. A percussão corporal como recurso musical. Artigo eletrônico. Grupo Fritos (blog). Disponívem em , publicado em 20 de abril de 2012.
GAINZA. Violeta Hemsy de. Estudos de Psicopedagogia Musical. 3ª Edição. São Paulo : Summus Editorial, 1988.
SANTIAGO, Patrícia Furst. Dinâmicas corporais para a educação musical: a busca por uma experiência musicorporal. Revista da ABEM, Porto Alegre, V. 19, 45-55, mar. 2008.
SCHAFER, Murray. O Ouvido Pensante. 1ª ed. 1986. Traduzido por Marisa Fonterrada et.al. São Paulo : Unesp, 1992.

2 comentários:

gezo rodrigues disse...

Muito bom o artigo. O corpo humano é um excelente instrumento musical com vários timbre:É um instrumento vocal, percussivo e com capacidade para reproduzir timbres dos mais diversos instrumentos musicais. Portanto a escola deveria se voltar para esse potencial. Parabéns Prof. David Diel

gezo rodrigues disse...

corrigindo "timbres"

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