segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Um pouco de tudo e muito de nada

[...] Acho que toda investigação intelectual específica acaba encontrando desafios e limites que a obriga a entrar em contato com outros campos que podem ajudá-la a superá-los. Existe uma interdisciplinaridade de superfície, aquela do “pesquisador generalista” que camufla sua incompetência travestindo-se com discursos de outras áreas. Isso é muito comum, por exemplo, quando substituímos o discurso propriamente urbanístico por aqueles oriundos da sociologia, da economia, da estatística e outras áreas. [...] Mas existe, também, uma transdisciplinaridade profunda, que só pode ser empreendida por quem domina uma especialidade ao ponto de nela ver as fissuras e porosidades que a obrigam a entrar em contato com outras áreas para resolver seus problemas. [...] trafegar entre várias áreas é algo próprio de uma inquietude pessoal muito grande, muito ansiosa e nada confortável. [...] ¹

Quando me deparei com a dissertação de mestrado de Marcelo Mello, intitulada "Reflexões sobre linguística e cognição musical", percebi o quanto eu ainda estou distante do meu objetivo profissional (ou que eu ainda não tenho idéia do que realmente quero como acadêmico). De aproximadamente 300 páginas, 42 foram necessárias para a bibliografia. Não sei como isso é possível em dois anos de mestrado, mas saber como isso acontece a essa altura do campeonato é irrelevante. Eu tenho que fazer isso acontecer. Estou percebendo que o generalismo presente em diversas instâncias da minha vida também permeia meus primeiros passos na carreira acadêmica e tenho medo que isso me leve à um paradoxo do qual eu não consiga sair. Saber um pouco de tudo é muito bom, mas saber muito de nada é muito ruim. Preciso achar uma solução: seja descobrindo uma maneira de aprender muito de tudo, seja descobrindo como adequar minha situação dentro da academia, ou ainda mudando o rumo da minha carreira. Então, se me dão licença, tenho que terminar meu mestrado...

¹ Prof. Pós-doutor Carlos Antônio Leite Brandão, então diretor do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da UFMG, em entrevista publicada no mês de abril de 2009.