terça-feira, 4 de agosto de 2026

A vida, senhores, é uma caixinha de surpresas...


Quem poderia imaginar que após décadas de dedicação à música eu seria mais feliz e realizado como coveiro. Deixa eu explicar. Não é que eu me sinta a pessoa mais feliz e realizada do mundo sendo coveiro, mas que como coveiro eu atualmente tenho mais tempo e disponibilidade fisica e emocional para estar com minha família. E isso é o que realmente importa pra mim nessa fase da minha vida.

Sou coveiro desde janeiro de 2017, quando decidi abandonar o cargo de Professor de Música efetivo na prefeitura de Itabirito (MG), para assumir o cargo de "Auxiliar de Serviços Funerários" no município de Lagoa Dourada, município vizinho de Resende Costa. Pedi exoneração no final de 2023 e assumi como coveiro aqui em Resende Costa em janeiro de 2024 e aqui estou até hoje.

Ainda gosto de palco, como músico de apoio e não como destaque. Mas o processo, os ensaios, o estresse e a pressão não me convém no momento. Tocar em casamentos sim, na medida do possível, consigo conciliar. Aqui na cidade, de preferência à noite, afinal, a grande maioria dos sepultamentos ocorre de dia.

Aprende-se bastante sobre a vida trabalhando com a morte. E se tem uma coisa que eu me orgulho nessa profissão é poder ajudar as pessoas a terminar de fazer o luto. Na morte de um parente, durante o velório e o sepultamento os familiares estão inundados de emoções que precisam de tempo e calma para serem processadas. Ainda sim, estas emoções podem deixar sequelas que só são totalmente curadas no momento em que este familiar acompanha a exumação de seu ente querido.

Não me pergunte o por quê disso, mas é o que ja ouvi falar e principalmente o que já vivi estando deste lado da história. Muitas pessoas que acompanharam exumação de seus parentes já me agradeceram pela condução desse momento onde puderam descarregar uma especie de peso ou angústia que carregavam desde o sepultamento de seus entes.

Uma ultima despedida? Ou a constatação definitiva de que a pessoa realmente morreu, ja que no velório os mortos parecem estar apenas dormindo? Seja o que for, ver os restos mortais já totalmente decompostos de um ente querido de alguma forma parece ter o poder de colocar o ponto final na história que moldou o sentimento de luto mal resolvido.

Para alem disso, a exumação é um processo repleto de tabus e, com toda razão, uma atividade marginalizada. A relação que temos com a morte e os ritos de passagem, é bem diferente da relação que tem  outros povos de outras culturas.

Ha povos que cremam seus mortos e jogam as cinzas no rio, outros mantém as cinzas consigo em urnas, outros nem cremam nem enterram e levam para lugares onde deverão ficar expostos aos elementos e à aves carniceiras para depois recolherem apenas os ossos. Há até mesmo povos que mantém seus mortos dentro de casa por meses ou até anos, conversam com ele, trocam suas roupas e oferecem comida... um tanto insalubre né...

Mas nossa cultura, bastante estruturada em tradições judaico-cristãs, trata a morte e os mortos com um distanciamento muito maior. O que é ótimo para as questões sanitárias, mas talvez prejudicial para as questões emocionais e subjetivas. A maior parte das pessoas não faz idéia de como se dá a decomposição de um cadáver humano e mesmo que já tenham visto carcaças de animais em beira de estrada não conseguem conceber o ser humano como outro animal de carne e osso.

A frase que eu mais escutei e ainda escuto desde que comecei a trabalhar de coveiro é "Nóis não vale nada mesmo!" e variações. Frase dita justamente no momento em que a pessoa presencia uma exumação. É aquele momento de epifania que visualizamos literalmente o significado dos versículos "do pó viemos, ao pó voltaremos". É também o momento em que cai a ficha do significado de Eclesiastes, com a segunda frase que eu mais escuto "Pra que tanta vaidade, né? Rico e pobre, preto ou branco, todos terminaremos aqui!"

Como eu disse, aprende-se bastante sobre a vida trabalhando com a morte. E não apenas trabalhando, mas simplesmente lidando, encarando de frente a verdade nua e crua, não mais em carne e osso, mas apenas em osso... A verdade de que o corpo morre, não costuma durar mais de 100 anos. Mas a Memória sim. Não é eterna, também será levada pelo vento algum dia, mas pode durar muito mais. E com isso você aprende que o que importa é como você se relaciona com as pessoas, sejam as que você ama ou as que lhe são indiferentes. Então você vai entender que seu valor não é definido pelo que resta do seu corpo após a morte, mas pelo que resta da sua memória nas pessoas que te conheceram.